Um dia na nova rotina.

O primeiro dia de uma nova rotina nunca é fácil, tinha consciência disso e passei o dia muito disposta a enfrentá-lo. O relógio tocou às 05:40h, escovei os dentes, comecei a me arrumar, entrei no quartinho deles, desliguei o ar-condicionado, abri a persiana e fui tentando acordá-los aos poucos. Desci, separei em cima da mesa as marmitinhas com o almoço que eu tinha feito no domingo, os dois lanches, da manhã e da tarde, conferi se estava tudo certo com as mochilas de coisas de escola e depois com as mochilas de coisas de ficar na escola em tempo integral (Com roupa, cueca, shampoo, sabonete, escova de  dente, chinelo, garrafinha, etc.), voltei pro quarto, chamei mais uma vez, continuei me arrumando e entre alguns protestos, vesti Vinícius. Logo em seguida, tentei mais um pouco, mostrei um “gagau” e Bernardo despertou…Mesmo processo pra levantar, mas enfim, prontos!

Na mala do carro já estava todo o material da escola (Pois é, deixei pra levar no primeiro dia de aula): 1584 rolos dos mais variados papeis, duas sacolas grandes com os demais materiais, mais duas sacolas de livros, 4 mochilas, duas lancheiras e dois meninos nas suas devidas cadeirinhas. Pra acordar, música nas alturas. Liguei na Jovem Pan, mas Bernardo queria Nação Zumbi. Expliquei que tinha perdido meu pendrive e que teria que ser a música da rádio mesmo, ele chorou por exatos dois quilômetros do nosso trajeto.

Na calçada da escola Vinícius tentava me convencer que não iria tomar banho na escola, que ele odiava a escola, que ninguém toma banho na escola e que não era justo ele ter que ficar nu na frente de alguém que ele não conhece. Falei que ele já tinha 7 anos, que poderia tomar um banho sozinho como faz em casa, que todas as tias da escola estavam acostumadas, que também eram mães e que ele não precisava ter vergonha. Ele disse: Mas mãe, eu tenho vergonha, por favor! Você não diz que o nosso corpo é só nosso e que outro adulto que não seja alguém de nossa confiança não precisa tocá-lo sem nossa permissão? Então? Pá! Primeira lição do dia. Verdade Vinícius, você não precisa tomar banho aqui na escola até se sentir à vontade, combinado.

nova rotina2

Veio o momento de adaptação, muitas crianças chorando, outras eufóricas, outras apáticas, outras curiosas. Entreguei Bernardo aos prantos para a professora, o nó involuntário na garganta apertou ainda mais, me escondi no terraço até que ele ficasse calmo. A professora veio me informar que ele foi pra sala do irmão e que depois ela o buscaria, e que agora eu poderia ir, qualquer coisa me ligaria (Esse momento traz alívio, mas ao mesmo tempo, culpa, dor e medo, e não queiram explicar, é difícil e só).

Finalmente estava estacionando em frente a academia, vamos se cuidar porque essa nova rotina também é pra isso. O professor perguntou meu objetivo, minha idade, a última vez que eu tinha me exercitado e “você tomou café da manhã”????  Tinha esquecido dessa parte. Corri pra padaria, devorei uma tapioca, malhei por uma hora e meia, voltei pra casa, tomei um banho, fiz um cardápio pra semana, e voltei pra escola, já perto do meio dia.

Eu queria ter conseguido não voltar, mas foi maior que eu. Chegando lá dei um banho em cada um (Sim, Vini aceitou o banho comigo), acompanhei o horário do almoço, perguntei mais uma vez pela programação de recreação da tarde, passei um tempo lambendo as minhas crias, encorajando-os, mostrando nas entrelinhas que ali era um lugar seguro, bacana e com pessoas boas, além de muito divertido (E tentando me convencer de tudo isso também, claro). Após uma hora e meia, veio de novo a sensação que a gente não sabe explicar.

nova rotina3

Minha tarde foi imensamente produtiva. Consegui fazer um planejamento para todo mês de fevereiro, consegui estabelecer algumas metas profissionais pra médio e longo prazo, consegui ter foco. Consegui mesmo.

No horário da saída no fim da tarde, cheguei num misto de saudades e expectativas, querendo saber como tinha sido pra eles esse novo começo, se eles estavam bem, quais atividades tinham feito, todas essas curiosidades. Consegui arrancar algumas frases, que obviamente não me satisfizeram, esses meninos são metidos a adolescentes, só falta mesmo o fone no ouvido, rs.

Chegando em casa estavam muito irritados, climão da porra, paciência em todos nós praticamente não existia, sei lá, foi um dia de sentimentos variados tanto pra mim, quanto pra eles, já que nunca tínhamos passado por essa experiência do integral. Brigamos, ficamos tensos, tomamos todos um banho juntos e fomos jantar. Bernardo apagou antes das 19h e Vinícius capotou às 20h.

Fui ajeitar o almoço para o outro dia, os lanches, repor as roupinhas, conferir as agendas, deixar os uniformes separados, tentei assistir algo pra descansar, mas não consegui e fui pra cama, satisfeita com o meu dia, apesar de uns contratempos no caminho, de umas chateações que não cabem nesse post.

A sensação que vencemos durou até meia noite e meia, logo depois que consegui pegar no sono e o primeiro abandonou a sua cama e chegou na minha. Ok, pode ficar aí, vamos dormir. Logo em seguida chegou o segundo. Tudo bem, podemos fazer da minha cama esse campo de refugiados. Gente, estava tudo bem, juro que estava. Daí o mais novo acorda querendo leite, desço já cheia de dores do primeiro dia de musculação para pegar o leite. Lá pras tantas o outro reclama que está com dor nos pés, levanto pra pegar uma meia. Cadê dormir de novo? Cabeça já pensando nas coisas que precisam ser feitas no dia seguinte. A fralda de Bernardo vaza e sinto um quentinho nas costas, levanto pra trocá-la, coloco um lençol por cima do outro lençol, exatamente onde está mijado, e digo “agora vai” (3 da manhã). Mais uma vez me acordo no pulo porque lembro que o ar condicionado do quarto deles ficou ligado e a conta de energia está vindo cara pra cacete. Levanto. Lá pra quatro e pouco, Bernardo acorda mais uma vez dizendo que já podemos descer pra assistir TV, me finjo de morta e morro mesmo, porque se não for pra vez ou outra trollar os filho tudo, eu nem teria sido main.

nova rotina

Acordo com o despertador, com a sensação de uma surra, porém me sentindo mais durinha (a gente gosta de acreditar em uns milagres), e peço forças pro universo, que ilumine a minha vida de mãe solo dessas duas criaturinhas mais santas, e que esse choro baixinho e tão devastador antes das 6 da manhã, seja o escape apenas de um cansaço, de medo em tá fazendo as coisas erradas mais uma vez, dessa sensação de impotência que sentimos quando pensamos que podemos perder o emprego a qualquer momento, e com isso, não mais suprir as necessidades dos pequenos, medo do resto do ano, medo das mil doenças que a gente pensa que eles podem ter, cansaço, insegurança, medo. Vontade de um abraço sem julgamentos.

E repito tudo outra vez, mas hoje, coloquei logo que acordei uma batata doce pra assar e sai comendo no carro com uma garrafa de chá de hibisco (Não estou fazendo regime louco não, definitivamente não é comigo, mas estou evitando até onde posso alguns alimentos, consumindo outros e por aí vai), resolvi não malhar porque fui marcar uns exames, e pronto, estou escrevendo esse post.

É isso manas, só um “pequeno” desabafo, vlw flws! Abracem as crianças e as mães do mundo, por favor.

COMPARTILHE
Ana Medeiros
É a neta de D. Edite. Ana comanda o #ACQMVQ e vive diariamente decorando aqui e ali. Trabalha home office produzindo conteúdo para o blog e outras empresas das internetes. É mãe de dois pioios lindos, ama comer, desaguar nas palavras, e não dispensa uma caipirinha no fim de semana. Sabe que ser livre também é perder o controle, que morar é mais do que habitar e que um abraço apertado é melhor que banheira de ofurô.
Faça seu comentário

12 Comentários

  1. Só de saber que não sou a única a ter esses sentimentos já me anima. Quinta feira é a minha vez de recomeçar a rotina de escola com o filho e a garganta já vai fechando porque ele é igual o seu Vinícius, diz que odeia a escola 🙁
    Vamo na fé.

    PS: que foto é essa dos dois dormindo kkkkkk morri

  2. Boa sorte, Ana!
    Nada como um dia após o outro =) Em casa, é um drama pra levantar, escovar os dentes, arrumar os cabelos e eu en-lou-que-ci-da porque bato ponto (não posso atrasar mesmo) e o trânsito voltou pior do que nunca em Sampa, mas vamos à luta, as mães das cidades grandes e das cidades pequenas, tamo junto! rs

  3. Oi, linda 😀
    Então, tenho apenas 19 anos e tô começando minha faculdade de direito e esse teu depoimento me mostrou um lado diferente de ser mãe, diferente daquele que a gente sempre idealiza, mais realista, obrigada. Sigo você há um tempo e tdo mais, adoro aqui. Decidi comentar aqui só pra desejar muita força. E claro, parabenizar pela guerreira que é.
    Muito luz e paz. Fica bem! Bjs

  4. É isso aí querida! A luta não é fácil não, mas é bom saber que do lado de cá também não tá diferente. A loucura da rotina, mais um turbilhão de emoções, mais a responsabilidade de “ter que dar conta”. É muita coisa pra um corpitcho só, que precisa ser cuidado também!!!
    Sinta se abraçada!!!! É muito obrigada por partilhar!

  5. Ana, te sigo já há tanto tempo. gosto muito de você, por mais que isso possa parecer estranho – e parece, hehe. A dupla, tripla jornada a que estamos etidas por sermos mulheres não é fácil. Menos ainda para quem voa solo.
    Força e um abração, mana.

  6. Ana, quanta admiracao! Nem sou mae ainda mas te admiro muito, essa sua garra e alegria.
    Nem sempre o sucesso de um dia ‘e pela quantidade de coisas que conseguimos resolver, mas pela alegria e aprendizados das pequenas coisas. Hoje não deu academia? Tudo bem, resolve outras coisas, tudo no seu limite! Um beijo e parabéns pela coragem de expor a sua realidade sem maquiagem

  7. Não sou muito de comentar em blog, mas esse realmente não tem como ficar de fora.
    Ser mae, profissional e dona de casa é ser assim mesmo…. ter uma rotina insana, cuidar casa, comida, roupas, filhos, trabalho e ainda ter tempo pra marido e ganhar dinheiro. Aqui em casa eu tb passo por isso, achei que eu era a unica, mas pelo visto nao rssss tenho um pequeno de 04 anos que agora nao me da mais um pingo de trabalho, e agora estou gravida de 03 meses (parece que não gostamos da calmaria e logo arrumamos mais uma pra testar a nossa capacidade) rssss

    Enfim, veja por outro lado, penso eu que essa adrenalina, cansaço e esse desafio diário é o que nos move.

  8. Que post incrível, Ana!
    Eu não sou mãe nem de um, quanto mais de dois mas consegui compartilhar durante esses minutos de leitura dos teus sentimentos, aflições e felicidades. Tenho um enteado e, por mais diferente que seja, sei como a rotina com criança muda a vida de todos.
    E o apoio do lado de cá sempre vem!
    Obrigada pelos relatos sinceros de sempre.

    Beijos.
    BLOG COISA E TAL

  9. Adoro esses posts sobre a rotina e as inseguranças da vida. Me identifico muito. Principalmente quando vc acorda a noite e não consegue dormir pq fica pensando nas mil coisas que podem acontecer e no que precisa ser resolvido! Mesmo quando os filhos não mudam de escola, o medo e insegurança aparecem, pois a cada ano que passa é uma professora nova, novos amigos e outros que não voltam. E a adaptação começa quase do zero em alguns aspectos! Mas é isso aí, vida que segue! Parabéns pelo blog!! Adoro e sempre acompanho!! Beijos

  10. Ana eu te adoro mesmo sem te conhecer pessoalmente e desejo muito que você seja feliz com seus pequenos. Que Deus te ilumine sempre. Beijo.

Deixe um comentário

Por favor, deixe um comentário
Por favor, informe seu nome