Sobre empatia e o batman

sobre empatia e batmam

Não é possível controlar o que os outros pensam a seu respeito e muito menos, como interpretam as coisas que diz e faz. Não sei vocês, mas sabe quando você faz algo com a melhor das intenções e sai tudo errado e você ainda pode ser transformada em vilã?! Sim, sim…acontece, já aconteceu. Seja por causa de numa palavra sem contexto, perdida, por causa de uma atitude… Não acredito muito nessas pessoas que nunca tiveram esse tipo de problema. Até minha mãe que é, aliás, a pessoa mais paciente e bondosa com os outros, já passou por isso. E olha que costumo dizer que se na porta do céu tiver fila e as pessoas forem convocadas por merecimento, (desculpe!)minha mãe será a primeira da lista. Pode ficar tranquilo que provavelmente as listas de primeiros lugares estão com vários nomes de mães que conhecemos por aí.

Qualquer pessoa pode passar por algo assim e  o mais importante é que você tenha certeza de si e de quem você é, independente do que pensem. Continue fazendo o que acredita.

Gostaram da introdução? Ela é apenas uma jogada, da minha parte, para que você entenda que as pessoas, mesmo querendo muito acertar, erram e erramos feio. Lembrem disso! Vai começar o que tenho pra contar…

Era uma vez uma  tarde seca em Brasília, daquelas que o nariz pede água com vontade. Estava fora de casa quando ouvi a seguinte frase ao atender uma ligação:

Seu filho tá com a boca machucada. Brigou na escola.

– Oi?que?como assim, gente?! que loucura?! que?

– Sim, a professora disse que estava brigando.

– Que horror! Ahhhhhh, mas deixa eu chegar em casa. Esse menino vai me ouvir. Será que é isso mesmo?! Afffffff…

Aí a imaginação começa: Será que ele tava provocando alguém? Não quero que meu filho seja o que fica apanhando dos outros na escola. Credo! Não, não posso incentivar meu filho a ter comportamentos violentos. A mãe da Elaine sempre dizia que se ela apanhasse na escola, apanharia em casa quando chegasse. Credo! Que será que esse menino aprontou… MAS ESSE MENINO! Só falta agora eu ter um menino véi que fica brigando na escola. Que ódio que eu tenho de briga! São esses filmes de super-herói. É coisa desse Batman nada a ver que ele gosta. Nunca mais. NUNCA MAIS esse menino vai assistir tv. Tá proibido esse negócio véio de super-herói. Que negócio de Marvel num sei das quantas….

Respiro fundo quando chego em casa e chamo o menino já com sangue nos ói. O pobre vem, óbvio, achando que vai ficar o resto da vida sem jogar vídeo game.

– Que conversa é essa de briga na escola?

– Não briguei.

Aí a mãe já começa a aumentar o volume.

– Como assim não brigou?! hã? Alguém bate nos outros sem o outro provocar?! Me diz!

– Não sei. Eu não briguei, mãe.

Aumenta o som mais um pouquinho.

– Agora pronto! Não brigou?! Então a professora tá doida, né?! Sua boca tá machucada! POR-QUE-VO-CÊ-BRI-GOU-NA-ES-CO-LA?!!?!? ANDA! Responde!

– Não briguei, mãe. Já disse. Foi assim: o fulano achou que eu queria brigar com ele e me deu um soco na boca.

– Do nada?! Foi?! Vou te tirar dessa escola! Que vergonha! Você nunca mais vai assistir sas coisa véia de super-herói! O mundo real num tem coisa de ficar brigando com os outros não e dizer que num tava brigando. Nunca mais briga na escola tá?!

– Mãe, não briguei. Eu já disse! Fulano achou que eu tava brigando com ele e me bateu. Não fiz nada!

– Fez nada…

– É sério! Ele me bateu, mas eu nem tava brigando com ele.

Eu odeio esse negócio de briga.

Meu filho não é santo. Eu conheço minha cria, mas confesso que MUITAS vezes já briguei/chamei a atenção dele, inclusive na frente das pessoas, para mostrar para os outros que ele estava sendo “educado”. A ideia dele ser diferenciado por causa de um comportamento, ainda que fizesse parte apenas da fase, dessa coisa mesmo de ser criança, me aterroriza. As pessoas são intolerantes com  as crianças. Que loucura isso, sabe… Você responde a um comportamento do com seu filho de uma forma  dura (exagerada), muitas vezes, tentando fazer com que alguém o veja melhor e não o interprete como alguém ruim. Como se ele já não fosse ele (e isso que é importante) e dane-se o que os outros pensam.

Mas ok… o buraco é mais fundo.

João foi a escola e falou para a professora que tínhamos conversado com ele. Ninguém na escola soube nos explicar o contexto do que tinha acontecido. Passei dias tentando entender a situação, sem saber o que realmente o que era aquilo alí que tinha acontecido. Continuava perguntando  pra ele,  tentando com a mesma pergunta, uma nova resposta.

 – Ninguém bate em ninguém do nada, filho! Por que esse menino te bateu?

E ele continuava respondendo:

 -Mãe, ele achou que eu tava brigando com ele, mas eu não tava e aí ele me bateu.

Isso rolou antes das férias de junho. Quando foi em novembro,  a gente tava assistindo alguma coisa na tv sobre  violência doméstica e o Gael entrou na sala. Por ter conhecido essa realidade em outro momento da minha vida, estava com os olhos cheios de lágrimas, lembrando do passado e das coisas que passavam na minha cabeça naquela época a meu respeito.

-Mãe, por que você tá chorando?!

-Ah, filho…num é nada sério. Mamãe lembrou de uma coisa que aconteceu com ela e ficou triste. Já passou. 

Contei, mais ou menos, o que estava vendo e finalizei com o seguinte:

– Filho, promete que você nunca vai bater em mulher nenhuma?! Nem nas suas amigas da escola, nem em qualquer um, homem ou mulher. Por favor, promete que não vai bater em ninguém, não vai ficar brigando com as pessoas por aí. Isso não é legal. 

Não falei pra relembrar o que aconteceu na escola. Falei por falar! Falei o que estava sentindo, como queria que ele entendesse e o que eu queria que ele aprendesse, naquele momento ali, sobre aquele assunto.

– Mãe, não bato não. Não gosto disso. Foi por causa disso que o fulano me bateu aquele dia na escola que machucou minha boca. A gente tava brincando e a “menina x” queria entrar na brincadeira. Ele não deixou, ela falou que ele era chato e aí virou uma confusão. Ele queria bater nela e eu entrei na frente. ELE ACHOU QUE EU QUERIA BRIGAR COM ELE E ME BATEU. Eu só não queria que ele batesse na menina x. Não queria que ninguém me batesse se eu fosse ela.

Pergunta: Quantas vezes, mesmo com as melhores intenções, fomos interpretados da pior forma possível?!

E como isso pode doer.

Resumindo:

  1. Ele contou a verdade o tempo todo.  Sei que as crianças inventam muita coisa, mas nesse caso, algo me diz e me faz ter certeza que ele está dizendo a verdade.
  2. Ainda que, no primeiro momento, parecesse que ele tinha feito algo ruim, já que alguém disse que ele “estava brigando”,  não fez. “Estava brigando”, para mim, significa participante da ação de forma ativa.  A versão passada para os pais, ou era de alguém que não viu exatamente o que tinha acontecido ou de quem ouviu apenas uma das versões do fato. Alerta! Cuidado para não ser injusta, assim como fui, por ter apenas uma visão adulta de um acontecimento entre crianças.
  3. Os pais erram. Lembra que ali eu fiz uma introdução bacana pra reforçar que as pessoas erram, né?! Todo mundo erra… Todo mundo mesmo.
  4. A primeira coisa que me veio na cabeça com a resposta dele foi: Quantas vezes meu filho estava tentando me dizer algo e eu não vi além do que eu estava realmente perguntando?!
  5. O processo de aprendizado é punk para todos os lados envolvidos. Não só para as crianças. Eles vão sobreviver. Faz parte.
  6. Mesmo assistindo o Batman e todos os outros, seu filho poderá aprender valores importantes. O que ele vai aprender tem a ver com com o que ele está assistindo em você.
  7. Aproveite os momentos óbvios para falar da vida e ensinar, mas não duvide da capacidade dele de optar por boas escolhas quando você não estiver perto. Dentro dele estava claro que aquela atitude do amigo não era legal o tempo todo.
  8. Nossos filhos serão capazes de se posicionarem em momentos difíceis. O meu medo é a consequência disso, Brasil! Como vamos lidar se,mesmo tentando fazer algo bom, eles sofrerem coisas ruins?! E como lidar quando o que é bom para alguém é bizarro pros outros? É fato que a violência ainda é a forma de resolver muitas coisas para muitos adultos.
  9. O que descobri sobre a vida com isso?!  Fazer algo é tão importante quanto refletir sobre.  Ele preferiu agir ao  assistir o pior acontecer.
  10. Seu filho pode aprender coisas bacanas com o Batman ou apenas se divertir enquanto assisti tv.  Tá chato esse negócio de que tudo tem que ensinar as crianças, né?! Uai, deixa o menino só se divertir mesmo. Qual o problema!?

Depois de um abraço apertado e um pedido de desculpas (sim!), faço uma nova pergunta pro meu guri:

– Gael, você sabe o que é empatia?!

– Não! Que é isso?!

Ele sabe sim. Só não sabe ainda como escreve.

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A Gabi é jornalista, mora em Brasília e é mãe de dois meninos lindos. Ela e o marido arquiteto estão de casa nova, e vira e mexe, executam algumas boas ideias em família.
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12 Comentários

  1. Super me identifiquei, mas é necessário aprendermos que o que como você disse: nossos filhos nós assistem. Tomara que nossos filhos possam assistir o nosso ” me perdoa ” Mamãe errou conta comigo!

  2. Gabi que lição! Tenho um Gael de apenas 7 meses, e se ele for um pouquinho como seu pequeno nesse sentido já vou me sentir orgulhosa.
    Quanto a fazermos coisas com boas intenções e darem errado, acho que o melhor mesmo é assumirmos o erro, como você fez. Ninguém é perfeito, e nesse exercício ensinamos que é normal errar, desde que tentemos consertar o erro. Imagina como seria se nossos filhos achassem que somos perfeitas? Muita cobrança, dos dois lados, não?
    Beijos!

    • Num é, Camilla. Cada acontecimento desses podem nos ensinar várias coisas. Acho que isso é um fato que me faz valorizar a maternidade como algo que humaniza as pessoas. Você vive tendo que refletir sobre seus conceitos. Apesar das cobranças todas, me recuso a viver de culpa. Temos que passar por esse processo aceitando cada vez mais a nossa “normalidade”. Não somos perfeitas mesmo.:)

  3. Caramba! Me fez chorar já cedo. Me vi falando com meu filho. Kkkk
    Dá um beijo bem apertado bem na cara desse menino véio, aí, por mim, ok?
    Amei o texto e a história compartilhada. Bjs

  4. Adorei! Principalmente a conclusão: “Ele sabe sim. Só não sabe ainda como escreve.”.

    Obrigada por partilhar um gesto maravilhoso de uma criança.

    As maiores felicidades e continuação de um dia bom,

    Joana

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