Sobre mudar para Portugal

Vem cá que hoje te conto como fui parar na margem sul do Tejo, do outro lado de Lisboa em Portugal. Aproveita pra gente conversar sobre maternidade, mudanças e estar ou não confortável com o desconforto.

Resolvi fazer uma “pegadinha” com o mais velho. Sabia que dessa vez a  aprovação do mestrado do marido podia ser positiva e quis lançar a possibilidade da mudança aos poucos pros guris. Se eu dissesse que a gente ia mudar logo de cara ia ter muita ansiedade envolvida de ambos os lados e era meio um segredo. Nem eles e nem ninguém da família sabia direito o que estava vindo até termos uma resposta.

– Filho, deixa eu te perguntar uma coisa. Se você tivesse a oportunidade de fazer futebol em uma escolhinha num lugar longe do papai e da mamãe, você faria?
– Longe quanto? Tipo o que?
– Tipo longe mesmo. Num outro país. Lá na Espanha, sei la…

Até então o Neymar andava por lá e essa era uma referência para ele.

– Você e o papai iam me visitar?
– Sim, claro. Sempre!
– Tá! Eu ia.

Achei um desaforo. Pensei que ele ia dizer “ficar sozinho? Jamais!” e que não teria coragem de viajar de avião sem que eu pegasse na sua mão, mas ele disse nesse impulso que é dele que faria. Ele iria com tudo! Com medo de avião, medo de não fazer amigos novos, medo de deixar amigos velhos, tios, primos e avós. Tudo que envolve, ainda que por um tempo, o começar outra vez. Apesar que eu jamais deixaria em qualquer futuro ele fazer algo do tipo ainda criança. Eu iria com ele! Óbvio. Eu ou o pai, mas ele sozinho, não.

Até certa idade, quando ele caía no chão a gente gritava de longe para levantar e há quem dissesse que isso era uma demonstração de “falta de coração” da nossa parte. Só queria que ele se levantasse das grandes ou pequenas quedas sozinho primeiro. Que só me chamasse quando algo realmente fosse necessário.

Todos crescemos. Eu um pouco mais que ele, apesar da estatura já estar quase a mesma. Lembro que meus impulsos chegaram tão cedo e nunca saíram de mim, mas foram polidos, hora mais e hora menos, por quem queria ser e mostrar, quem estava comigo (amigo ou namorado, pais e família), pela idade. De alguma forma eu tinha um desejo de acertar a rota da vida e o impulso nunca saiu de mim. Nem quando nem sabia direito onde eu mesma ia parar.

Muitas vezes me lasquei nessa vida. Quem nunca?! A culpa não é só dos impulsos. É das escolhas que fazem tudo mesmo se transformar nessa jornada. Acertamos e erramos. Aliás, se a cada passo que der deixar de ser uma pessoa menos merda, com erros ou acertos, já está valendo tudo. Todo mundo faz esse caminho.

Finalmente estavam várias coisas no lugar. Continuava com alguém que me fazia bem, realizei meu sonho de ser mãe duas vezes, sai da depressão e estava no trabalho que desejei muito. Minha família estava perto. Já um outro lado disso tudo (meu marido) estava em um dilema inspirado na situação econômica do país. Do meu lado as coisas pareciam progredir e da parte dele pareciam um tanto paradas.

Tínhamos sonhos. Sonhos individuais que sempre se cruzam na nossa vida a dois. A gente tem no tabuleiro um jogo que progride. Só pensamos na nova estratégia quando há uma nova jogada e isso pode mudar tudo. Era hora de pensar em como avançar mais uma linha eu, ele e nós. Quais sonhos e mudanças precisavam da nossa atenção . Quem sonha pode precisar de quem o lembre.

Não há pesar nisso. Há amor e total compromisso.

Foi assim que a ideia de vir para Portugal surgiu.  Veio com a promessa do João não abandonar seus sonhos e um deles era de fazer um mestrado. Esse se apaixonou pelo meu de caminhar por aí e ter uma vida menos corrida com mais tempo para a família.  Quando colocamos na balança quanto custaria um mestrado em Portugal e quanto custaria no Brasil, as coisas pareciam possíveis com muito planejamento e adaptações.

Só que além de nós dois tinham eles. Os meus dois guris.

Por mais positiva que seja e um pouco desses impulsos por mudanças vem da certeza que a vida pode ser sempre menos conformada, nada é fácil.  Imaginei como seria, fiz minhas pegadinhas para preparar eles, mas a vida acontece a seu modo.

Se um chorou muito no dia que realmente contamos que estávamos indo embora, 10 minutos depois já se lembrou de quantas coisas bacanas podia conhecer do outro lado do oceano. Se o outro aceitou também a vinda, isso não significa que foi fácil ouvir dele numa manhã qualquer um “quero voltar para o Brasil”.

No final e isso é apenas um começo, cá estamos em Portugal há pouco mais de um mês e eu fico me perguntando se, na verdade, não tinha um grande desconforto na minha vida aparente no lugar. Era hora de mudar sim.  Respeite alguns impulsos.

Lá no fundo sinto um certo orgulho pelo desprendimento do menino. Não podemos polir a coragem, na dose certa, de uma filho.

5 curiosidades sobre a mudança:

1.  Tem apenas um intervalo de 8 anos entre a primeira vez que pensei em sair do país e a minha mudança de verdade.

2. Não somos ricos e óbvio que levei muita marmita para o trabalho para levantar o mínimo possível e necessário para a sobrevivência de 4 em um lugar que o Real não está valorizado. Também vendi muitas coisas que tinha e que me davam uma vida confortável.

3. Aliás, falando em conforto, temos apenas itens básicos no apartamento, mas temos muito amor e uma parceria que deixa a falta de muitas coisas que tínhamos passar discretamente. Vou mostrar o apartamento nos posts de decoração.

4. Não é um ano sabático e sim há muito trabalho pela frente, mas ainda não está nas nossas mãos. Oremos! Que venham essas novas oportunidades.

5.  Os meninos estão bem e se mesmo com tudo isso estão tranquilos, estou também. É assim que funciona a cabeça da mãe. Tem a felicidade deles e muita fé. O pacote completo faz tudo possível.

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A Gabi é jornalista, mora em Brasília e é mãe de dois meninos lindos. Ela e o marido arquiteto estão de casa nova, e vira e mexe, executam algumas boas ideias em família.
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12 Comentários

  1. Oi Gabi! Seja bem vinda a Portugal!

    Estou aqui com a família desde janeiro, e as adaptações foram as melhores possíveis. Há sempre algo novo, alguns medinhos e inseguranças rondando, e seguimos em frente, sempre, felizes! No regrets!
    Caso queira conversar, estou à disposição!
    Beijo,
    Tati

  2. Seja bem-vinda a Portugal, meu país.Sigo o seu blogue há muito tempo e fico contente q tenha escolhido pra viver este pequeno pedaço de terra, q se encontra de alma e braços abertos para receber pessoas. Qualquer indicação q precise estou disponível.
    Bem-haja!
    Zita

    • Oi, Zita! Que bacana ler sua mensagem.

      Esse blog lindo é da Ana Medeiros, mas tenho certeza que ela fica muito satisfeita de saber que tem gente acompanhando o trabalho dela de tão longe. Muito obrigada de coração pela mensagem e disposição.

      🙂

  3. Gabi!!! Quanta coragem e força dentro de vc! Que Deus continue dando forças, saúde e paz, para vc, seu maridos e seus guris. Sucesso nessa terrinha nova!
    Bjs,
    Renata

  4. Oi Gabi! Qual o emprego tão desejado que você citou no post?
    Vocês foram só com as economias, sem emprego certo? Alugaram uma casa/apto com antecedência? Quanto tempo?
    Queria saber tudo rsrs

    • Oi,Paula. Eu era analista de comunicação em uma assessoria de imprensa.Viemos sim com as economias e com tudo dentro das exigências para estarmos de forma legal no país já que o plano é morar aqui até o fim do curso do marido e não queríamos passar por uma situação estranha de ilegalidade com duas crianças “pequenas”. Eles não são bebês, mas são pequenos ainda. Aluguei o ap quando cheguei aqui e foi bem difícil. Faltam apartamentos para a demanda que o país tem hoje. Como consequência os preços subiram muito e vejo isso já que estávamos há algum tempo pensando na mudança. Tentamos algumas candidaturas no ano passado e não rolou vir. Ainda bem! Alguns ciclos precisavam ser fechados na nossa vida. rs. Fora a dificuldade de ter imóveis disponíveis para aluguel, infelizmente o preconceito é algo real quando você se identifica como brasileiro. O plano é passar dois anos aqui. 😉

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